Esporte: A 72 dias das Olimpíadas Rio 2016 velejadores reclamam de sujeira durante treinamentos

A 72 dias das Olimpíadas Rio 2016 velejadores reclamam de sujeira durante treinamentos


Cão morto boiando na Baía de Guanabara, na altura da praia do Flamengo.

Velejadores estrangeiros que passam períodos de treinos no Rio de Janeiro não têm percebido melhora na qualidade da água da Baía de Guanabara faltando pouco mais de dois meses para os Jogos Olímpicos. Esta semana, atletas se depararam com animais mortos e outros objetos flutuando na praia do Flamengo. Situação que piora em dias de chuva, panorama dos últimos dias.

Atletas ouvidos pelo GloboEsporte.com têm notado a presença de poucos ecobarcos, que têm a função da limpeza diária do lixo flutuante. Desde janeiro a Secretaria de Estado de Ambiente (SEA) não paga a Prooceano, a Ecoboat e a Brissoneau. A primeira empresa orienta através de GPS os dez ecobarcos das outras duas. Segundo o órgão o atraso é motivado pela crise econômica do governo do Rio. A assessoria de imprensa da SEA informa que a dívida de R$ 540 mil será paga no próximo mês e que a operação não foi paralisada. Acrescenta que os ecobarcos operam por outras partes do espelho d´água, não apenas nas raias olímpicas.

E sobre objetos flutuantes na água, a SEA conta com a ajuda da população para que não despeje lixo nos rios que desaguam na baía. O pagamento do primeiro contrato para a operação de limpeza também sofreu atraso. Em janeiro deste ano a dívida também era de R$ 540 mil e foi quitada posteriormente. Em relação às ecobarreiras, nove das 17 prometidas para os Jogos foram instaladas nos rios que mais poluem a Baía de Guanabara. Até julho o restante ficará pronto, segundo a SEA.

Treinador espanhol que foi assaltado na última sexta-feira, Santiago Lopez Vázquez se deparou com um cachorro boiando durante o treino da dupla que orienta da Nacra 17, Fernando Echávarri Erasun e Tara Pacheco.

- Sempre que chove muito tem mais lixo na água - disse.

Em visita ao Rio, dirigentes da Federação Internacional de Vela (World Sailing) não andaram de barco pela baía desta vez. Os relatos de sujeira preocupam, mas eles confiam nas soluções paliativas para os Jogos.

- A qualidade da água preocupa, mas estamos certos de que as autoridades de meio ambiente deixarão o campo de jogo limpo durante os Jogos. Confiamos nos ecobarcos e ecobarreiras, e ainda teremos um helicóptero monitorando a área. Vamos pressionar para que tudo fique pronto. Esperamos que como legado dos Jogos a cidade mostre que é possível limpar a Baía de Guanabara. Gostaríamos que isso acontecesse - disse o diretor de competições Alastair Fox, que também elogiou a reforma da Marina da Glória.

- As mudanças nos últimos dois anos foram incríveis. A Marina está pronta para as Olimpíadas. Estamos bastante felizes. Andamos por onde haviam saídas de esgoto que foram desviadas e não sentimos nenhum cheiro ruim. E como tem chovido nos últimos dias acho que foi um bom teste.

O português Jorge Lima, que faz dupla com José Costa na 49er, lembra do caso de sucesso na limpeza do rio Tejo, em Lisboa. Ele rejeita uma hipotética herança cultural lusitana e o fato de o governo estadual estar falido

- Dizem eles que estão falidos. Mas as pessoas continuam a pagar impostos. Há 15 anos, em Lisboa, o rio Tejo era um nojo, como aqui. Desde animais e sacos plásticos, tudo era despejado lá. Isso mudou, Fizeram projetos e fecharam saídas de esgoto. Esse ano já apareceram golfinhos no rio. Já disseram que a culpa da Baía de Guanabara estar assim é dos portugueses descobridores. Mas quem é que joga garrafa no chão hoje? É o português? - questionou.

O estuário do Tejo, por sinal, foi uma das inspirações para a proposta do Centro Integrado de Gestão da Baía de Guanabara (CIG), apresentado nesta semana pela Secretaria de Estado de Ambiente (SEA). O objetivo é concentrar os esforços para despoluir os 400km² de área em uma só instituição, quando atualmente há vários gestores. Funcionários de várias instituições ficariam reunidos em um só local atuando na despoluição e preservação ambiental da Baía de Guanabara. A CIG foi gerida após reuniões com especialistas, ONGs, lideranças, universidades, gestores públicos e privados e entidades civis.

Além do Tejo, outros casos internacionais de despoluição hidrográfica servem de inspiração, como as Baías de Chesapeake e de São Francisco, nos Estados Unidos, o Rio Tâmisa, na Inglaterra, a Baía de Sidney, na Austrália, que recebeu a vela nos Jogos Olímpicos de 2000, e os Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, todos no Brasil. Segundo a SEA, em todos eles há a governança participativa da sociedade. O modelo de governança teve cooperação técnica da KCI Technologies, de pesquisadores da Universidade de Maryland (EUA) e da Coalizão de Universidades do Brasil.

A cooperação é fruto de acordo assinado pelo Estado com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e com a Fundação Brasileira de Desenvolvimento Sustentável (FBDS). Pela proposta, as ações do CIG estariam desvinculadas de mandatos de governo – quando houver a troca de gestores de órgãos públicos envolvidos, as ações permanecerão sendo empreendidas.
Sem cumprir a promessa de tratar 80% do esgoto para os Jogos, contida no dossiê de candidatura, resta torcer pelas soluções paliativas. E para que a previsão de poucas chuvas em agosto se concretize.

Fonte: Globo Esporte
Foto: Santiago Vázquez
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